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ANDANÇAS
(Buenas - Janeiro e Fevereiro 2008)

por D. Machry

O alemão e o gaúcho

Dia desses me vi em meio a polvadeira, dessas que dá gosto de entrar. Era uma discussão sobre a mistura da música alemã e a gaúcha. Eu sempre fico prevenido, pois a turma sabe de que lado estou e assim crio uma proteção natural. Até porque este é um assunto velho, mas digamos sempre atual. O leitor certamente imagina que existe radicalismo entre estas duas importantes vertentes musicais. E geralmente ele está do lado dos alemães. Mas eu não os condeno, porque se estamos em terras sobejamente germânicas a coisa pende naturalmente para o lado alemão.

Como sou de origem alemã e nascido no Vale do Rio Cai no vizinho Rio Grande do Sul, convivo com a mesma discussão do lado de lá. Eles, os riograndenses de origem alemã aceitam naturalmente a música gaúcha, por ser a música extra-oficial daquele estado, mas tem uma leve preferência pelas bandinhas, como eles se referem a música alemã.

Na região das missões no Rio Grande do Sul, donde saíram grandes músicos que levaram a tradição a patamares muito altos, teve nos futuristas o contraponto do novo ritimo alemão, hoje espalhado por todo Sul do Brasil. Os 3 Xirús vieram dar uma contribuição nesta harmoniosa convivência, com músicas letradas ao sabor da gente alemã em ritimos gauchescos. Existem até músicas deste grupo cantadas meio a meio, sendo a parte alemã no legítimo plat deutsch. Aliás este alemão que mistura, palavras em português e hoje largamente falado do Rio Grande do Sul ao Norte do País, nesta grande faixa migratória da colonada gaúcha. Até em terras paraguaias esta gente vive e é forte na província de Missiones na Argentina.

Eu mesmo, em junho deste ano, na festa da minha família, em São José do Cedro, o baile oficial foi com o balanço do Rio Grande, grupo do meu sobrinho Xará e a domingueira foi ao som dos Alemãozinhos de Blumenau. Foi salão cheio nos dois ritimos, com empolgação por igual entre jovens e a melhor idade.

Voltando a discussão inicial, a gente daqui do Vale do Itajaí aceita com resalvas a música gaúcha. Acho que esta convivência tende a crescer na medida que ela não é colocada com o intuito de confrontar. Peguemos os exemplos de Lages e Florianópolis. A serra catarinense tem um sotaque que os políticos gostam de referenciar. No lugar de dizer que a turma tem hábitos gauchesco, preferem dizer que o lageano é BOI DE BOTAS, uma frase dita pelo Garibaldi quando teve o apoio decisivo dos lageanos no deslocamento de suas tropas, debaixo do mau tempo na região de Laguna. Em Lages também tem gente de origem alemã, mas o tom da música de lá é gauchesca. É a terra que tem um dos maiores festivais de música gaúcha de toda a América, a Sapecada da Canção Nativa, paralela a Festa do Pinhão. E o exemplo de Florianópolis é único, lá você encontra gente de todo estado, muitos gaúchos, porém que não gostam muito de ser rotulados como tal, porque são majoritariamente de Porto Alegre, onde a tradição gaúcha nunca esteve na vanguarda. Na Grande Florianópolis, especialmente São Pedro de Alcântara e Rancho Queimado tem alguns movimentos, porém tímidos, em torno da valorização da tradição alemã. Em termos de música, inexistente.

Viver num estado com etnias e descendências múltiplas, faz estas convivências nem sempre tão harmoniosas, porém o respeito se faz presente, o que já dá o tom da coisa. Santa Catarina é múltipla, mas a convivência é pacífica e assim tem espaço para as regiões explorarem sua riqueza cultural e tradicional. Ganhamos todos com isso. E viva a diferença (como diziam os franceses).
 

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