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O alemão
e o gaúcho Dia desses me vi em meio a polvadeira, dessas
que dá gosto de entrar. Era uma discussão sobre a mistura da música
alemã e a gaúcha. Eu sempre fico prevenido, pois a turma sabe de que
lado estou e assim crio uma proteção natural. Até porque este é um
assunto velho, mas digamos sempre atual. O leitor certamente imagina que
existe radicalismo entre estas duas importantes vertentes musicais. E
geralmente ele está do lado dos alemães. Mas eu não os condeno, porque
se estamos em terras sobejamente germânicas a coisa pende naturalmente
para o lado alemão. Como sou de origem alemã e nascido no Vale do Rio
Cai no vizinho Rio Grande do Sul, convivo com a mesma discussão do lado
de lá. Eles, os riograndenses de origem alemã aceitam naturalmente a
música gaúcha, por ser a música extra-oficial daquele estado, mas tem
uma leve preferência pelas bandinhas, como eles se referem a música
alemã. Na região das missões no Rio Grande do Sul, donde saíram
grandes músicos que levaram a tradição a patamares muito altos, teve nos
futuristas o contraponto do novo ritimo alemão, hoje espalhado por todo
Sul do Brasil. Os 3 Xirús vieram dar uma contribuição nesta harmoniosa
convivência, com músicas letradas ao sabor da gente alemã em ritimos
gauchescos. Existem até músicas deste grupo cantadas meio a meio, sendo
a parte alemã no legítimo plat deutsch. Aliás este alemão que mistura,
palavras em português e hoje largamente falado do Rio Grande do Sul ao
Norte do País, nesta grande faixa migratória da colonada gaúcha. Até em
terras paraguaias esta gente vive e é forte na província de Missiones na
Argentina. Eu mesmo, em junho deste ano, na festa da minha família, em
São José do Cedro, o baile oficial foi com o balanço do Rio Grande,
grupo do meu sobrinho Xará e a domingueira foi ao som dos Alemãozinhos
de Blumenau. Foi salão cheio nos dois ritimos, com empolgação por igual
entre jovens e a melhor idade. Voltando a discussão inicial, a gente
daqui do Vale do Itajaí aceita com resalvas a música gaúcha. Acho que
esta convivência tende a crescer na medida que ela não é colocada com o
intuito de confrontar. Peguemos os exemplos de Lages e Florianópolis. A
serra catarinense tem um sotaque que os políticos gostam de referenciar.
No lugar de dizer que a turma tem hábitos gauchesco, preferem dizer que
o lageano é BOI DE BOTAS, uma frase dita pelo Garibaldi quando teve o
apoio decisivo dos lageanos no deslocamento de suas tropas, debaixo do
mau tempo na região de Laguna. Em Lages também tem gente de origem
alemã, mas o tom da música de lá é gauchesca. É a terra que tem um dos
maiores festivais de música gaúcha de toda a América, a Sapecada da
Canção Nativa, paralela a Festa do Pinhão. E o exemplo de Florianópolis
é único, lá você encontra gente de todo estado, muitos gaúchos, porém
que não gostam muito de ser rotulados como tal, porque são
majoritariamente de Porto Alegre, onde a tradição gaúcha nunca esteve na
vanguarda. Na Grande Florianópolis, especialmente São Pedro de Alcântara
e Rancho Queimado tem alguns movimentos, porém tímidos, em torno da
valorização da tradição alemã. Em termos de música, inexistente. Viver
num estado com etnias e descendências múltiplas, faz estas convivências
nem sempre tão harmoniosas, porém o respeito se faz presente, o que já
dá o tom da coisa. Santa Catarina é múltipla, mas a convivência é
pacífica e assim tem espaço para as regiões explorarem sua riqueza
cultural e tradicional. Ganhamos todos com isso. E viva a diferença
(como diziam os franceses).
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