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Em defesa da música do Sul
Há quem diga que o gaúcho peleador, aquele que não leva desaforo
pra casa e que outrora fazia revolução por amor e em defesa da sua
pátria e/ou território, só brigava em tempos que a temperatura lhe era
adversa. Isto teria sido uma regra também para os gaúchos além
fronteira, uruguaios e argentinos. Digo isto porque esta
máxima igualmente acontece na música aqui do sul. É no inverno que o
gaúcho peleia sentimentalmente para defender sua música dos invasores e
aí nascem canções, uma mais macanuda que a outra. Neste período também
acontecem muitos dos grandes festivais e/ou encontros musicais, as
barrancas como muitas vezes são chamados. Aqui entre nós temos a
Sapecada da Canção Nativa que dispensa apresentações. Qualquer bugio já
sabe, começaram a aparecer os primeiros pinhões para vender, encilhou o
Pingo e subiu a serra para este grande encontro em Lages, que sempre
acontece no período do feriado de Corpus Christi. E a Sapecadinha, como
é carinhosamente chamada a edição regional, está cada ano melhor e hoje
já classifica músicas que vão direto ao palco da final da grande
Sapecada. A menção feita sobre a intensa criação de
músicas no período do frio, para defender o legado nativista e
folclórico da grande nação gauchesca, da qual fizemos parte com muito
orgulho, é uma realidade cada vez mais latente, uma vez que o inimigo
que quer destruir o nosso patrimônio cultural está cada vez mais
próximo, quando não entrincheirado, travestido de lobo em pele de
cordeiro. É só olharmos com atenção em nossa volta. Muitos bons músicos
estão por jogar a toalha dizendo que o nativismo puro não consegue mais
pegar a cesta básica e custear o estudo da piazada. Lamentável.
E sabem onde também escutei semelhantes? Foi no Oeste
paranaense. Lá estando a trabalho, tomei contato com a gauchada que se
bandeou do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina para a região
denominada de Municípios Lindeiros do Lago Itaipu. Neste feriado, estava
acontecendo o Encontro das Águas, ou seja, uma barranca das três
fronteiras, onde gaúchos, argentinos e paraguaios se reúnem para o
sagrado ritual da criação de músicas nativas ou folclóricas como são
denominadas nos países irmãos. Segundo os organizadores, o Encontro das
Águas nasceu do instinto de preservação desta raiz cultural que une
estes povos irmãos. Hoje a preocupação é ainda maior em defesa da
constante ameaça dos grandes centros urbanos. Como
declaradamente apaixonado pelo Chamamé, uma das vertentes fortes entre a
gente missioneira argentina e também dos vizinhos paraguaios me
emocionei com o evento Encontro das Águas, mais uma iniciativa para
servir de escudo em defesa da nossa música de raiz aqui do Sul
maravilha. |