EDITORIAL (Buenas - Maio/Junho 94)Por Vilarino Wolff
Pinhão, pinha, pinheiro
Mataram a árvore... foram-se as gralhas... escasseou o
pinhão.
O homem, na sua voracidade econômica, tornou-se o inimigo número um da natureza.
Devastou grandes florestas, desprezou a consciência de que ao agredir o meio ambiente
poderia estar acabando com o seu habitat, fez-se indiferente à lógica da sobrevivência.
Em milhares de anos talvez milhões esse procedimento vem presidindo as satisfações mais
imediatas do ser humano, suprindo suas necessidades de abrigo, alimentação, progresso,
desenvolvimento, etc.
Tudo seria plenamente justificável. Não se pode impedir o direito ao estabelecimento de
uma vida digna, para o que a utilização dos recursos naturais sempre foi um componente
indispensável. Da mesma forma, a alimentação encontra grande parte dos seus integrantes
na natureza e por aí afora os argumentos pró e contra são infinitos. A grande verdade
é que o homem tanto abusou, muito mais por ignorância do que por ganância se bem que
esta tem sido a mola mestra da depredação, que acabou aprendendo quão importante é
pensar na sobrevivência a partir da preservação do meio ambiente, poupando a natureza
de agressões burras e desordenadas.
MAS O MAL FEITO JÁ ESTÁ
POSTO
Milhões de pinheiros foram ceifados, mudando a fisionomia
do planalto. A indústria da madeira para construção, para móveis, para exportação,
agiu como uma nuvem de gafanhotos quando ataca a lavoura. Foi uma verdadeira devastação.
Apesar das leis que obrigavam a reposição da espécie, a inconsciência dos empresários
do setor não permitiu que cumprissem essa obrigação: ou não sabiam ou, simplesmente
deixaram de cumprir as leis. Como a fiscalização do Ministério da Agricultura (na
época) já não funcionava, como hoje também é difícil funcionar em tantos outros
setores das atividades governamentais, os fatos foram acontecendo impunemente até a
devastação quase completa dos grandes pinheirais.
Com isso foi-se a riqueza natural, foi-se o maravilhoso canto das gralhas nas tardes
fabulosas em que, aos bandos, coloriam as matas de azul e faziam ecoar sua algazarra
romântica. Foi-se o verso ingênuo do peão, quando cantava nos folguedos de São João: pinheiro
me dá uma pinha pinha me dá um pinhão / morena me dá um beijo / que eu te dou meu
coração.
Esperamos que a Festa do Pinhão não se limite apenas aos seus aspectos festivos,
econômicos, de marketing da cidade. Esperamos, sinceramente, que as pessoas em especial
os ecologistas e os habitantes mais conscientes partam para uma atitude ousada na
compensação dos erros do passado. Mais do que ousadia, uma atitude agressiva de grande
capacidade recuperadora. O raciocínio é simples: se Lages tiver uma população de 150
mil habitantes e cada habitante plantar UM pinhão, poderemos ter, ao longo de
algum tempo, 150 mil pinheiros novos. E muito mais pinhão haverá para as festas do
futuro em tempo ilimitado. Principalmente, se o poder público ajudar na tarefa. |